sexta-feira, 23 de outubro de 2026

80 Km até Bertioga: Quando o plano muda, mas a vontade continua

No dia 2 de outubro, estava marcado mais um daqueles treinos que fazem parte da minha história na corrida: sair do Riacho Grande, em São Bernardo do Campo, e seguir até Bertioga, onde moram meus pais. Como foi nas ultimas vezes, o treino seria noturno chegando em Bertioga no amanhecer.

Esse é um dos meus percursos preferidos. Um caminho maravilhoso, passando pela histórica Paranapiacaba e por estradas rurais que atravessam regiões como Quatinga e Taiaçupeba, já no município de Mogi das Cruzes. Em muitos momentos, parece que estamos correndo pelo interior de São Paulo, longe da correria da cidade, cercados por estradas de terra, natureza e paisagens que tornam cada quilômetro especial.

Normalmente, faço esse treino com meu irmão Beto. Mas, dessa vez, ele estava aguardando a chegada do novo membro da família, um novo Cianfarani da família, e me explicou que, naquela fase, o bebê poderia nascer a qualquer momento. Melhor não arriscar e deixar a corrida para outra oportunidade!

Então, combinei de fazer o percurso com meu amigo Emerson.

Tudo organizado, logística acertada e mochila preparada.

Como não faz sentido começar esse treino de casa, por causa do trecho de rodovia que teríamos de percorrer, nosso ponto de partida seria o início do Caminho do Sal, na região da Estrada Velha do Mar, no Riacho Grande.

Para isso, contamos sempre com a ajuda do nosso amigo Parreira, que nos leva até o local de saída e, no dia seguinte, nos encontra em Bertioga, na casa dos meus pais. É uma logística fundamental para que esse treino aconteça, e sou muito grato por essa parceria de tantos momentos.

Estava tudo combinado. Parreira passaria em casa por volta das 19h30, para nos deixar no ponto de


partida às 20h. Como correríamos durante a madrugada, sem contar com estabelecimentos abertos pelo caminho, comprei algumas coisas para comer e beber. Nesse tipo de treino, precisamos carregar o necessário e estar preparados para seguir por conta própria.

Só que os planos mudaram poucas horas antes da largada.

Por volta das 18h, recebi uma ligação do Emerson. Surgiu um imprevisto no trabalho e ele precisaria ficar de plantão. Não conseguiria ir. Ele ainda tentou me convencer a deixar o treino para outro dia, mas comecei a pensar na situação e tomei minha decisão.

Eu iria sozinho.

Conversei com meu irmão Beto, expliquei o que havia acontecido e perguntei o que ele achava. Ele me tranquilizou, dizendo que o caminho era conhecido, relativamente tranquilo e que eu só precisava ficar atento aos cachorros que aparecem em alguns trechos.

A Claudia, por sua vez, não gostou nem um pouco da ideia. E eu entendo perfeitamente! Uma coisa é sair para correr durante o dia, com movimento pelo caminho. Outra é passar a madrugada inteira sozinho, atravessando estradas desertas, sem casas, chácaras ou qualquer apoio por longos trechos.

Mas eu já havia decidido.

Peguei minha mochila, organizei tudo o que precisaria carregar e parti para mais uma aventura.

Uma madrugada de garoa, neblina e muito barro

Comecei o treino debaixo de uma garoa forte e com uma neblina daquelas que praticamente apagam o caminho à nossa frente. A lanterna iluminava pouco mais de um metro e meio, e era preciso prestar muita atenção em cada passo.

O trecho inicial pelo Caminho do Sal foi bastante difícil. Muito barro, pouca visibilidade e alguns pontos em que correr era praticamente impossível. Em determinados momentos, precisei caminhar, porque o terreno não oferecia condições para manter a corrida.

Esse trecho também passa por uma região bastante isolada, onde há estradas utilizadas para a manutenção dos etenodutos da Braskem. É uma área sem residências ou chácaras por perto, o que torna a travessia ainda mais desafiadora durante a madrugada, especialmente com a garoa, a neblina e o barro.

Era seguir com paciência, sem ansiedade, respeitando as condições do caminho.

Depois de um bom tempo, consegui chegar à rodovia que liga Rio Grande da Serra a Paranapiacaba. Dali em diante, as coisas ficaram mais tranquilas. Segui pela rodovia por aproximadamente dez quilômetros, até chegar a Paranapiacaba.

E foi ali que aconteceu uma das passagens curiosas dessa madrugada.

Já era por volta da meia-noite ou uma hora da manhã quando cheguei à vila. Estava sozinho, caminhando e correndo pelas ruas, quando avistei o famoso cemitério de Paranapiacaba, cercado por tantas histórias e curiosidades.

Eu nunca havia encontrado o cemitério aberto. Naquela noite, estava.

Pensei comigo: por que não aproveitar a oportunidade para conhecer um pouco mais de perto um lugar pelo qual já havia passado tantas vezes?

Acabei dando uma olhada por ali, com respeito, claro. Depois, tirei uma foto do lado de fora para registrar minha passagem e segui viagem.

Antes de continuar, aproveitei também para abastecer minha mochila em uma boa bica de água de Paranapiacaba. Afinal, ainda havia muito chão pela frente.

A partir dali a neblina havia desaparecido e a garoa também ficara para trás. O caminho começou a fluir melhor, e pude retomar meu ritmo.

Passei por Quatinga sem precisar reabastecer. Mais adiante, já me aproximando de Taiaçupeba, encontrei outro ponto para pegar água e continuei avançando.

A madrugada foi ficando para trás, e o céu começou a clarear.

O dia amanhece e o treino segue no ritmo planejado

Quando faltavam aproximadamente cinco quilômetros para chegar à rodovia Mogi-Bertioga, o dia já estava clareando. Avisei o Parreira que estava me aproximando da rodovia, para que ele ficasse atento, pois logo entraria em contato novamente.

Diferentemente de outras ocasiões, dessa vez eu não seguiria até a beira-mar, em Bertioga, correndo todo o trecho final da rodovia. Existe uma parte sem acostamento que considero perigosa, devido ao movimento dos veículos, e preferimos evitar esse risco.

A própria Mogi-Bertioga exige atenção, mas, naquele trecho de serra, a inclinação faz com que muitos veículos reduzam a velocidade. Ainda assim, segurança vem sempre em primeiro lugar.

E havia outro detalhe importante: eu estava usando esse treino também como parte da minha preparação para os próximos desafios.

Por isso, procurei manter um ritmo constante e bem cadenciado do início ao fim. Não era uma questão de sair forte ou tentar provar alguma coisa. Queria sentir o corpo, observar como respondia ao esforço prolongado e terminar com a sensação de ter feito um bom trabalho.

E foi exatamente assim que aconteceu.

Depois de uma longa madrugada, cheguei à parte final da serra, onde o terreno começa a ficar mais plano. Ali encontrei o Parreira, que já estava me esperando.

Mas havia um pequeno detalhe: ainda faltavam alguns metros para completar a distância planejada.
Antes de entrar no carro, fiz questão de completar os 80 quilômetros.

O treino estava concluído: 80 quilômetros percorridos, atravessando a madrugada e chegando ao amanhecer.

Só depois de completar a distância entrei no carro do Parreira e seguimos para a casa dos meus pais.

O melhor de tudo estava esperando em casa

Se tem uma coisa que torna esse treino especial, além do percurso, é a chegada.

Encontrar meu pai e minha mãe, ver os dois alegres, sorrindo e contentes por me receber, é algo que não tem preço.

Mas, como não poderia deixar de ser, também veio aquela bronca!

Os dois ficaram um pouco bravos por eu ter resolvido fazer o percurso sozinho, durante a madrugada. E quem é pai ou mãe sabe como funciona: podemos ter a idade que for, podemos ter experiência de vida e passar anos enfrentando desafios, mas, para eles, continuamos sendo seus filhos.

E está tudo certo. A preocupação deles é uma demonstração de carinho, e eu entendo isso perfeitamente.

A verdade é que terminei o treino muito contente. Consegui manter um ritmo constante, senti que estou evoluindo bem na preparação e saí com aquela satisfação de quem cumpriu mais uma etapa do caminho.

Também fica aqui meu agradecimento especial ao amigo Parreira, que mais uma vez nos ajudou com toda a logística. Sem esse apoio, realizar um treino desses seria muito mais complicado.

E assim seguimos: um treino de cada vez, respeitando o corpo, acumulando experiências e deixando histórias pelo caminho.

Porque, para mim, correr nunca foi apenas completar uma distância. É conhecer lugares, viver momentos, encontrar pessoas, superar imprevistos e guardar lembranças que, muitas vezes, acabam se tornando tão importantes quanto a própria chegada.

Mais um treino concluído. Mais uma história para contar. E ainda temos muito caminho pela frente!