Esse é um dos meus percursos preferidos. Um caminho
maravilhoso, passando pela histórica Paranapiacaba e por estradas rurais que
atravessam regiões como Quatinga e Taiaçupeba, já no município de Mogi das
Cruzes. Em muitos momentos, parece que estamos correndo pelo interior de São
Paulo, longe da correria da cidade, cercados por estradas de terra, natureza e
paisagens que tornam cada quilômetro especial.
Normalmente, faço esse treino com meu irmão Beto. Mas, dessa
vez, ele estava aguardando a chegada do novo membro da família, um novo Cianfarani
da família, e me explicou que, naquela fase, o bebê poderia nascer a qualquer
momento. Melhor não arriscar e deixar a corrida para outra oportunidade!
Então, combinei de fazer o percurso com meu amigo Emerson.
Tudo organizado,
logística acertada e mochila preparada.
Como não faz sentido começar esse treino de casa, por causa
do trecho de rodovia que teríamos de percorrer, nosso ponto de partida seria o
início do Caminho do Sal, na região da Estrada Velha do Mar, no Riacho Grande.
Para isso, contamos sempre com a ajuda do nosso amigo
Parreira, que nos leva até o local de saída e, no dia seguinte, nos encontra em
Bertioga, na casa dos meus pais. É uma logística fundamental para que esse
treino aconteça, e sou muito grato por essa parceria de tantos momentos.
Estava tudo combinado. Parreira passaria em casa por volta das 19h30, para nos deixar no ponto de
partida às 20h. Como correríamos durante a madrugada, sem contar com estabelecimentos abertos pelo caminho, comprei algumas coisas para comer e beber. Nesse tipo de treino, precisamos carregar o necessário e estar preparados para seguir por conta própria.
Só que os planos mudaram poucas horas antes da largada.
Por volta das 18h, recebi uma ligação do Emerson. Surgiu um
imprevisto no trabalho e ele precisaria ficar de plantão. Não conseguiria ir.
Ele ainda tentou me convencer a deixar o treino para outro dia, mas comecei a
pensar na situação e tomei minha decisão.
Eu iria sozinho.
Conversei com meu irmão Beto, expliquei o que havia
acontecido e perguntei o que ele achava. Ele me tranquilizou, dizendo que o
caminho era conhecido, relativamente tranquilo e que eu só precisava ficar
atento aos cachorros que aparecem em alguns trechos.
Mas eu já havia decidido.
Peguei minha mochila, organizei tudo o que precisaria
carregar e parti para mais uma aventura.
Uma madrugada de
garoa, neblina e muito barro
Comecei o treino debaixo de uma garoa forte e com uma
neblina daquelas que praticamente apagam o caminho à nossa frente. A lanterna
iluminava pouco mais de um metro e meio, e era preciso prestar muita atenção em
cada passo.
O trecho inicial pelo Caminho do Sal foi bastante difícil.
Muito barro, pouca visibilidade e alguns pontos em que correr era praticamente
impossível. Em determinados momentos, precisei caminhar, porque o terreno não
oferecia condições para manter a corrida.
Esse trecho também passa por uma região bastante isolada,
onde há estradas utilizadas para a manutenção dos etenodutos da Braskem. É uma
área sem residências ou chácaras por perto, o que torna a travessia ainda mais
desafiadora durante a madrugada, especialmente com a garoa, a neblina e o
barro.
Era seguir com paciência, sem ansiedade, respeitando as
condições do caminho.
Depois de um bom tempo, consegui chegar à rodovia que liga
Rio Grande da Serra a Paranapiacaba. Dali em diante, as coisas ficaram mais
tranquilas. Segui pela rodovia por aproximadamente dez quilômetros, até chegar
a Paranapiacaba.
E foi ali que aconteceu uma das passagens curiosas dessa
madrugada.
Eu nunca havia encontrado o cemitério aberto. Naquela noite,
estava.
Pensei comigo: por que não aproveitar a oportunidade para
conhecer um pouco mais de perto um lugar pelo qual já havia passado tantas
vezes?
Acabei dando uma olhada por ali, com respeito, claro.
Depois, tirei uma foto do lado de fora para registrar minha passagem e segui
viagem.
Antes de continuar, aproveitei também para abastecer minha
mochila em uma boa bica de água de Paranapiacaba. Afinal, ainda havia muito
chão pela frente.
A partir dali a neblina havia desaparecido e a garoa também
ficara para trás. O caminho começou a fluir melhor, e pude retomar meu ritmo.
Passei por Quatinga sem precisar reabastecer. Mais adiante,
já me aproximando de Taiaçupeba, encontrei outro ponto para pegar água e
continuei avançando.
A madrugada foi ficando para trás, e o céu começou a
clarear.
Quando faltavam aproximadamente cinco quilômetros para
chegar à rodovia Mogi-Bertioga, o dia já estava clareando. Avisei o Parreira
que estava me aproximando da rodovia, para que ele ficasse atento, pois logo
entraria em contato novamente.
Diferentemente de outras ocasiões, dessa vez eu não seguiria
até a beira-mar, em Bertioga, correndo todo o trecho final da rodovia. Existe
uma parte sem acostamento que considero perigosa, devido ao movimento dos
veículos, e preferimos evitar esse risco.
A própria Mogi-Bertioga exige atenção, mas, naquele trecho
de serra, a inclinação faz com que muitos veículos reduzam a velocidade. Ainda
assim, segurança vem sempre em primeiro lugar.
E havia outro detalhe importante: eu estava usando esse
treino também como parte da minha preparação para os próximos desafios.
E foi exatamente assim que aconteceu.
Depois de uma longa madrugada, cheguei à parte final da
serra, onde o terreno começa a ficar mais plano. Ali encontrei o Parreira, que
já estava me esperando.
Mas havia um pequeno detalhe: ainda faltavam alguns metros
para completar a distância planejada.
Antes de entrar no carro, fiz questão de
completar os 80 quilômetros.
O treino estava concluído: 80 quilômetros percorridos,
atravessando a madrugada e chegando ao amanhecer.
Só depois de completar a distância entrei no carro do
Parreira e seguimos para a casa dos meus pais.
O melhor de tudo
estava esperando em casa
Encontrar meu pai e minha mãe, ver os dois alegres, sorrindo
e contentes por me receber, é algo que não tem preço.
Mas, como não poderia deixar de ser, também veio aquela
bronca!
Os dois ficaram um pouco bravos por eu ter resolvido fazer o
percurso sozinho, durante a madrugada. E quem é pai ou mãe sabe como funciona:
podemos ter a idade que for, podemos ter experiência de vida e passar anos
enfrentando desafios, mas, para eles, continuamos sendo seus filhos.
A verdade é que terminei o treino muito contente. Consegui
manter um ritmo constante, senti que estou evoluindo bem na preparação e saí
com aquela satisfação de quem cumpriu mais uma etapa do caminho.
Também fica aqui meu agradecimento especial ao amigo
Parreira, que mais uma vez nos ajudou com toda a logística. Sem esse apoio,
realizar um treino desses seria muito mais complicado.
E assim seguimos: um treino de cada vez, respeitando o
corpo, acumulando experiências e deixando histórias pelo caminho.
Porque, para mim, correr nunca foi apenas completar uma
distância. É conhecer lugares, viver momentos, encontrar pessoas, superar
imprevistos e guardar lembranças que, muitas vezes, acabam se tornando tão
importantes quanto a própria chegada.
Mais um treino
concluído. Mais uma história para contar. E ainda temos muito caminho pela frente!
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