Na verdade, a história desse
quarteto começou alguns meses antes, quando fizemos a Brasil 135, em janeiro. A
princípio, a ideia era repetir o mesmo quarteto: eu, o Morelli, o Latansa e o
Vinícius.
Já estava tudo certo. O quarteto
estava montado, a prova estava marcada, a gente já tinha combinado tudo.
Só que tivemos uma baixa. E,
nesse caso, foi por um motivo muito nobre.
O capitão Vinícius foi convocado
para ajudar no resgate das vítimas do terremoto na Venezuela. Então, de última
hora, ele precisou abrir mão da prova.
Mas, por uma dessas coincidências
boas da vida, a solução já estava praticamente dentro da equipe.
O Emerson, meu companheiro de
treino, seria um dos nossos apoios. Então o próprio Vinícius falou:
“Eu estou saindo. Coloca o
Emerson no meu lugar. Ele também corre, já vai estar lá e não precisa mudar
praticamente nada. ”
E foi assim mesmo. Sem muita
conversa, sem precisar procurar ninguém. O Emerson saiu da condição de apoio e
entrou para o quarteto.
Então ficou formado o nosso time: eu e meu companheiro de treino, Emerson, junto com os dois
bombeiros, João Morelli e Richard Latansa.
E aí fomos para Passa Quatro - MG.
Nós chegamos alguns dias antes
porque já tínhamos combinado com a organização de participar também de um outro
desafio. Na UAI existe a modalidade Double, em que o atleta faz duas vezes os
235 quilômetros, totalizando 470.
Havia quatro atletas fazendo essa
modalidade, e eu, o Morelli e o Latansa fomos fiscais, junto com mais um fiscal
disponibilizado pela organização.
Chegamos lá na terça-feira, dia
21 de julho, e já começamos essa primeira missão.
No sorteio dos atletas, eu acabei
ficando como fiscal do meu amigo Henrique Lobo. Então, de certa forma, ficou
até mais fácil, porque nós já nos conhecíamos.
E o Henrique fez uma baita
primeira volta, inclusive o melhor tempo dessa primeira volta, e terminou a
segunda também muito bem.
Mas a nossa grande missão seria
mesmo o quarteto.
E aí veio a nossa filosofia:
“Já que nós vamos em quarteto,
vamos fazer direito. ”
A gente poderia simplesmente ir
para lá, curtir o caminho, conversar, brincar e completar os 235 quilômetros.
Mas pensamos: já que estamos em quatro, vamos fazer uma prova de qualidade.
Cada um tinha que explorar o seu
ponto forte.
Quem era melhor nas subidas? Quem
gostava mais das descidas? Quem segurava melhor no plano? E quem seria o
curinga?
Fomos montando a estratégia e, no
dia 24 de julho, às oito horas da manhã, foi dada a largada.
E o primeiro trecho tinha uma
particularidade: até Itamonte - MG, o atleta precisava correr sozinho. A equipe
de apoio só podia começar a atuar dali para frente.
Então eu fui o escolhido para
fazer os primeiros 20 e poucos quilômetros, de Passa Quatro até Itamonte.
E logo de cara veio um dos
grandes desafios daquela edição da UAI.
Normalmente, a gente já espera
muito frio nessa prova, porque estamos falando de pleno inverno. Só
que dessa
vez, além do frio, tivemos muita, muita chuva.
Choveu durante boa parte do
primeiro dia. Uma chuva forte mesmo.
E isso complicava bastante a vida
de quem estava correndo e também de quem estava fazendo apoio. Porque, no nosso
caso, nós tínhamos um detalhe importante: éramos apenas os quatro.
Não tínhamos uma equipe de apoio.
Nós éramos atleta e apoio ao
mesmo tempo.
Então, quando chegava a hora da
troca, um tinha que ajudar o outro, pegar equipamento, buscar alguma coisa,
trocar roupa… e tudo isso debaixo de chuva.
O corpo ficava molhado, você
entrava no carro, saía do carro, tentava trocar de roupa, e às vezes era quase
impossível ficar toda hora se trocando.
Eu mesmo terminei a prova com a
voz meio rouca por causa do frio que passei.
Depois de Itamonte, finalmente
começamos os revezamentos.
A estratégia inicial era eu ficar
algumas trocas esperando, para recuperar a musculatura, recuperar o fôlego e
depois voltar.
Só que fiz isso umas duas vezes e
pensei:
“Não vou ficar aqui parado
passando frio, não. ”
E voltei para a pista.
A partir dali, fomos fazendo um
ritmo muito forte.
E aí veio a nossa brincadeira.
Falamos:
“Vamos tentar chegar na frente de
todo mundo. ”
Não importava se o outro estava
correndo solo, em dupla ou em quarteto. A ideia era fazer um ritmo mais forte
do que tínhamos imaginado inicialmente.
Tanto que, em alguns Posto de Controle,
nós chegávamos tão cedo que a organização ainda estava terminando de montar o
PC.
Na nossa frente estava apenas o
Jandosa, que fazia a prova solo e liderava com bastante vantagem.
Seguimos fazendo boas trocas até
chegar em Aiuruoca.
E aí veio outro momento diferente
da estratégia.
Na região da Serra do Papagaio, o
atleta precisava fazer um trecho sozinho, porque era uma área onde o carro não podia
entrar.
Quem assumiu esse trecho foi o
Morelli.
Enquanto ele fazia a travessia,
nós demos a volta até o outro lado, na região da Espraiada do Gamarra, para
encontrá-lo.
Depois ainda conseguimos avançar
um pouco pela estrada para ficar mais próximos.
Quando o Morelli entrou no carro,
ele precisava descansar. Afinal, tinha corrido durante a madrugada.
Nesse momento, o Emerson se
prontificou a dirigir, e eu e o Latansa fizemos um trecho de aproximadamente 26
a 30 quilômetros praticamente revezando entre nós dois.
Depois disso, voltamos a fazer as
trocas com os quatro.
E foi justamente enquanto
esperávamos o Morelli que aconteceu uma situação que marcou muito a nossa
prova.
O Jandosa, que estava liderando,
passou por nós.
Só que ele tinha acabado de cair.
A mão estava muito inchada e os
dedos estavam bastante machucados. Mais tarde, ele contou que provavelmente
tinha fraturado alguns deles.
E mesmo assim ele continuou.
Ele seguiu praticamente até a
última cidade, São Lourenço, carregando aquela lesão.
Só abandonou quando faltavam
cerca de 50 quilômetros para a chegada.
Nós encontramos com ele no PC de
São Lourenço e até falamos:
“A gente estava pensando em
chegar em você…, mas não dessa forma. A gente queria chegar correndo e não você
abandonando por lesão na mão. ”
E assim fomos seguindo até o
final.
Depois de toda aquela chuva,
frio, troca de roupa, revezamento, improviso, estratégia e muita brincadeira,
conseguimos alcançar o nosso objetivo.
Terminamos os 235 quilômetros em
pouco mais de 29 horas.
Exatamente 29 horas e 14 minutos.
Fomos os primeiros entre os
participantes dos 235 quilômetros a chegar.
É claro que cada modalidade tem
sua característica. Tinha gente correndo solo, tinha dupla, tinha outros
quartetos. Mas, para nós, o resultado tinha um significado especial.
Porque a brincadeira que
colocamos na cabeça lá no começo deu certo.
Nós fomos para lá para nos
divertir, mas também decidimos que, já que estávamos em quatro, iríamos fazer
uma prova forte.
E fizemos.
Mais do que o resultado, ficou a
diversão de estar com quatro amigos fazendo aquilo que a gente gosta.
Quando você faz um quarteto com
amigos assim, a corrida fica diferente.
Você corre, você brinca, você dá
risada, você sofre junto, um ajuda o outro, um entra quando o outro precisa
descansar.
E no final você percebe que a
prova não é só sobre tempo.
É sobre as histórias que ficam.
A única coisa que realmente
lamentamos foi o acidente do Jandosa.
Ele vinha fazendo uma prova
espetacular, provavelmente caminhando para um dos melhores tempos da
competição, mas acabou se machucando e precisou abandonar.
Faz parte da prova. Faz parte do
esporte. Às vezes você cai, às vezes se machuca, e naquele dia aconteceu com
ele.
Mas ele já está bem melhor e
recuperado.
E teve ainda um último gesto que,
para mim, fechou essa história de uma maneira muito especial.
Por uma coincidência, nós ficamos
hospedados na mesma pousada que o Jandosa.
E quando chegamos lá, o Emerson
falou:
“Assim que eu encontrar o
Jandosa, vou entregar o meu troféu para ele.”
Não era pelo resultado.
Era uma forma de demonstrar
respeito, admiração e reconhecimento pela força que ele teve durante aquela
prova.
E foi exatamente o que aconteceu.
De uma maneira simbólica, o
Emerson entregou o próprio troféu ao Jandosa, que havia abandonado a prova
faltando apenas 50 quilômetros para a chegada.
E acho que esse gesto representa
muito bem o espírito daquela UAI.
É sobre correr, sofrer, se
divertir, respeitar quem está do outro lado, ajudar os amigos e sair de uma
prova com histórias para contar.
A nossa história foi essa.
Eu, Emerson, Morelli e Latansa.
Quatro amigos, uma estratégia,
muita chuva, muito frio, 235 quilômetros e 29 horas e 14 minutos de muita
diversão.
Mais uma brincadeira concluída.
E, como sempre…
Prontos para a próxima.
Até o próximo desafio, até a próxima história.


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