sexta-feira, 21 de agosto de 2026

UAI Ultra dos Anjos - 24/07/2026 - Uma brincadeira que virou uma grande história

Bom, vamos falar da UAI Ultra dos Anjos.

Na verdade, a história desse quarteto começou alguns meses antes, quando fizemos a Brasil 135, em janeiro. A princípio, a ideia era repetir o mesmo quarteto: eu, o Morelli, o Latansa e o Vinícius.

Já estava tudo certo. O quarteto estava montado, a prova estava marcada, a gente já tinha combinado tudo.

Só que tivemos uma baixa. E, nesse caso, foi por um motivo muito nobre.

O capitão Vinícius foi convocado para ajudar no resgate das vítimas do terremoto na Venezuela. Então, de última hora, ele precisou abrir mão da prova.

Mas, por uma dessas coincidências boas da vida, a solução já estava praticamente dentro da equipe.

O Emerson, meu companheiro de treino, seria um dos nossos apoios. Então o próprio Vinícius falou:

“Eu estou saindo. Coloca o Emerson no meu lugar. Ele também corre, já vai estar lá e não precisa mudar praticamente nada. ”

E foi assim mesmo. Sem muita conversa, sem precisar procurar ninguém. O Emerson saiu da condição de apoio e entrou para o quarteto.

Então ficou formado o nosso time: eu e meu companheiro de treino, Emerson, junto com os dois



bombeiros, João Morelli e Richard Latansa.

E aí fomos para Passa Quatro - MG.

Nós chegamos alguns dias antes porque já tínhamos combinado com a organização de participar também de um outro desafio. Na UAI existe a modalidade Double, em que o atleta faz duas vezes os 235 quilômetros, totalizando 470.

Havia quatro atletas fazendo essa modalidade, e eu, o Morelli e o Latansa fomos fiscais, junto com mais um fiscal disponibilizado pela organização.

Chegamos lá na terça-feira, dia 21 de julho, e já começamos essa primeira missão.

No sorteio dos atletas, eu acabei ficando como fiscal do meu amigo Henrique Lobo. Então, de certa forma, ficou até mais fácil, porque nós já nos conhecíamos.

E o Henrique fez uma baita primeira volta, inclusive o melhor tempo dessa primeira volta, e terminou a segunda também muito bem.

Mas a nossa grande missão seria mesmo o quarteto.

E aí veio a nossa filosofia:

“Já que nós vamos em quarteto, vamos fazer direito. ”


A gente poderia simplesmente ir para lá, curtir o caminho, conversar, brincar e completar os 235 quilômetros. Mas pensamos: já que estamos em quatro, vamos fazer uma prova de qualidade.

Cada um tinha que explorar o seu ponto forte.

Quem era melhor nas subidas? Quem gostava mais das descidas? Quem segurava melhor no plano? E quem seria o curinga?

Fomos montando a estratégia e, no dia 24 de julho, às oito horas da manhã, foi dada a largada.

E o primeiro trecho tinha uma particularidade: até Itamonte - MG, o atleta precisava correr sozinho. A equipe de apoio só podia começar a atuar dali para frente.

Então eu fui o escolhido para fazer os primeiros 20 e poucos quilômetros, de Passa Quatro até Itamonte.

E logo de cara veio um dos grandes desafios daquela edição da UAI.

Normalmente, a gente já espera muito frio nessa prova, porque estamos falando de pleno inverno. Só
que dessa vez, além do frio, tivemos muita, muita chuva.

Choveu durante boa parte do primeiro dia. Uma chuva forte mesmo.

E isso complicava bastante a vida de quem estava correndo e também de quem estava fazendo apoio. Porque, no nosso caso, nós tínhamos um detalhe importante: éramos apenas os quatro.

Não tínhamos uma equipe de apoio.

Nós éramos atleta e apoio ao mesmo tempo.

Então, quando chegava a hora da troca, um tinha que ajudar o outro, pegar equipamento, buscar alguma coisa, trocar roupa… e tudo isso debaixo de chuva.

O corpo ficava molhado, você entrava no carro, saía do carro, tentava trocar de roupa, e às vezes era quase impossível ficar toda hora se trocando.

Eu mesmo terminei a prova com a voz meio rouca por causa do frio que passei.

Depois de Itamonte, finalmente começamos os revezamentos.

A estratégia inicial era eu ficar algumas trocas esperando, para recuperar a musculatura, recuperar o fôlego e depois voltar.

Só que fiz isso umas duas vezes e pensei:

“Não vou ficar aqui parado passando frio, não. ”

E voltei para a pista.

A partir dali, fomos fazendo um ritmo muito forte.

E aí veio a nossa brincadeira.

Falamos:

“Vamos tentar chegar na frente de todo mundo. ”

Não importava se o outro estava correndo solo, em dupla ou em quarteto. A ideia era fazer um ritmo mais forte do que tínhamos imaginado inicialmente.

Tanto que, em alguns Posto de Controle, nós chegávamos tão cedo que a organização ainda estava terminando de montar o PC.

Quando chegamos em Alagoa, já estávamos praticamente em segundo lugar.

Na nossa frente estava apenas o Jandosa, que fazia a prova solo e liderava com bastante vantagem.

Seguimos fazendo boas trocas até chegar em Aiuruoca.

E aí veio outro momento diferente da estratégia.

Na região da Serra do Papagaio, o atleta precisava fazer um trecho sozinho, porque era uma área onde o carro não podia entrar.

Quem assumiu esse trecho foi o Morelli.

Enquanto ele fazia a travessia, nós demos a volta até o outro lado, na região da Espraiada do Gamarra, para encontrá-lo.

Depois ainda conseguimos avançar um pouco pela estrada para ficar mais próximos.

Quando o Morelli entrou no carro, ele precisava descansar. Afinal, tinha corrido durante a madrugada.

Nesse momento, o Emerson se prontificou a dirigir, e eu e o Latansa fizemos um trecho de aproximadamente 26 a 30 quilômetros praticamente revezando entre nós dois.

Depois disso, voltamos a fazer as trocas com os quatro.

E foi justamente enquanto esperávamos o Morelli que aconteceu uma situação que marcou muito a nossa prova.

O Jandosa, que estava liderando, passou por nós.

Só que ele tinha acabado de cair.

A mão estava muito inchada e os dedos estavam bastante machucados. Mais tarde, ele contou que provavelmente tinha fraturado alguns deles.

E mesmo assim ele continuou.

Ele seguiu praticamente até a última cidade, São Lourenço, carregando aquela lesão.

Só abandonou quando faltavam cerca de 50 quilômetros para a chegada.

Nós encontramos com ele no PC de São Lourenço e até falamos:

“A gente estava pensando em chegar em você…, mas não dessa forma. A gente queria chegar correndo e não você abandonando por lesão na mão. ”

E assim fomos seguindo até o final.

Depois de toda aquela chuva, frio, troca de roupa, revezamento, improviso, estratégia e muita brincadeira, conseguimos alcançar o nosso objetivo.

Terminamos os 235 quilômetros em pouco mais de 29 horas.

Exatamente 29 horas e 14 minutos.

Fomos os primeiros entre os participantes dos 235 quilômetros a chegar.

É claro que cada modalidade tem sua característica. Tinha gente correndo solo, tinha dupla, tinha outros quartetos. Mas, para nós, o resultado tinha um significado especial.

Porque a brincadeira que colocamos na cabeça lá no começo deu certo.

Nós fomos para lá para nos divertir, mas também decidimos que, já que estávamos em quatro, iríamos fazer uma prova forte.

E fizemos.

Mais do que o resultado, ficou a diversão de estar com quatro amigos fazendo aquilo que a gente gosta.

Quando você faz um quarteto com amigos assim, a corrida fica diferente.

Você corre, você brinca, você dá risada, você sofre junto, um ajuda o outro, um entra quando o outro precisa descansar.

E no final você percebe que a prova não é só sobre tempo.

É sobre as histórias que ficam.

A única coisa que realmente lamentamos foi o acidente do Jandosa.

Ele vinha fazendo uma prova espetacular, provavelmente caminhando para um dos melhores tempos da competição, mas acabou se machucando e precisou abandonar.

Faz parte da prova. Faz parte do esporte. Às vezes você cai, às vezes se machuca, e naquele dia aconteceu com ele.

Mas ele já está bem melhor e recuperado.

E teve ainda um último gesto que, para mim, fechou essa história de uma maneira muito especial.

Por uma coincidência, nós ficamos hospedados na mesma pousada que o Jandosa.

E quando chegamos lá, o Emerson falou:

“Assim que eu encontrar o Jandosa, vou entregar o meu troféu para ele.”

Não era pelo resultado.

Era uma forma de demonstrar respeito, admiração e reconhecimento pela força que ele teve durante aquela prova.

E foi exatamente o que aconteceu.

De uma maneira simbólica, o Emerson entregou o próprio troféu ao Jandosa, que havia abandonado a prova faltando apenas 50 quilômetros para a chegada.

E acho que esse gesto representa muito bem o espírito daquela UAI.

No final das contas, não é só sobre quem chegou primeiro.


É sobre correr, sofrer, se divertir, respeitar quem está do outro lado, ajudar os amigos e sair de uma prova com histórias para contar.

A nossa história foi essa.

Eu, Emerson, Morelli e Latansa.

Quatro amigos, uma estratégia, muita chuva, muito frio, 235 quilômetros e 29 horas e 14 minutos de muita diversão.

Mais uma brincadeira concluída.

E, como sempre…

Prontos para a próxima.

Até o próximo desafio, até a próxima história.

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