 |
| Largada |
Eu recebi o convite para participar da The Ark, prova da
minha amiga Mônica Otero, ainda no ano passado. Naquele momento eu prometi para
ela que faria a prova em 2026. Então comecei a encaixar esse desafio no meu
calendário e já pensando em toda preparação necessária para encarar mais 100
milhas.
Convidei meu amigo Emerson para viver essa experiência
comigo. Nós já fizemos muitas provas juntos e temos um jeito parecido de
encarar ultramaratonas: sempre com respeito pela distância, sem exageros no
início e pensando muito mais em terminar bem do que simplesmente correr rápido.
Mas uma coisa nos chamou atenção logo de cara. Conversando
com atletas e vendo os resultados das edições anteriores, percebemos que a
prova tinha um número muito grande de desistências. Muitos DNFs. Aquilo
despertou nossa curiosidade.
Foi então que surgiu a ideia do Emerson:
“Vamos conhecer o percurso antes da prova. ”
E assim fizemos. Aproveitamos um treino de final de semana
para ir até a região de Charqueada. Fizemos cerca de 50 quilômetros correndo e
depois seguimos parte do percurso de carro, analisando o trajeto e tentando
entender o motivo de tantas desistências.
E não demorou muito para entendermos.
O grande desafio da prova era o calor extremamente forte da
região, combinado com a falta de estrutura durante muitos trechos do percurso.
Em vários pontos não havia onde comprar uma água, um refrigerante ou isotônico.
O atleta praticamente dependia exclusivamente da hidratação da organização.
Depois desse reconhecimento, mudamos completamente nossa
estratégia. Decidimos que faríamos a prova com apoio.
Mais uma vez entrou em ação a Claudia, sempre presente nas
minhas aventuras e desafios. Ela ficou responsável pelo carro de apoio, levando
nossa hidratação, suplementação, alimentação e todo suporte necessário durante
a prova. Sem esse apoio, tudo certamente seria muito mais difícil.
.jpeg) |
| Calor |
Chegamos em Charqueada no dia 27, um dia antes da largada.
Como a prova começaria muito cedo, seria impossível chegar no mesmo dia. Então
nos hospedamos por lá para descansar e nos preparar com
calma.
Na manhã da largada fomos bem tranquilos, dentro da
estratégia que sempre utilizamos. Em ultramaratonas longas, experiência conta
muito. Eu e o Emerson sabemos respeitar o tempo da prova e entendemos que 160
quilômetros não se vencem na empolgação.
Logo no início percebemos algumas mudanças no percurso em
relação aos anos anteriores. A organização estava tentando incluir mais uma
cidade no trajeto, justamente para melhorar um pouco a estrutura e dar mais
apoio aos atletas.
Outra novidade era que os atletas poderiam encerrar a prova
nos 80 quilômetros e receber oficialmente a conclusão dessa distância, sem
serem considerados desistentes. E realmente muita gente acabou optando por
parar ali.
Mas nós já tínhamos ido preparados mentalmente para
completar as 100 milhas.
O calor realmente castigou durante boa parte do dia.
Temperaturas altas, trechos expostos e um desgaste constante. Mas graças à
experiência acumulada em tantas ultras, conseguimos administrar bem a situação.
O apoio da Claudia foi fundamental durante toda a prova e conseguimos manter
nossa estratégia sem grandes problemas.
A prova exigia muita atenção também na navegação. Em alguns
trechos, principalmente dentro de uma área de reserva ambiental, não era
permitido colocar fitas ou marcações tradicionais. A sinalização era feita
apenas no solo, e o atleta precisava estar atento ao arquivo GPX no relógio ou
celular.
Muitos atletas acabaram errando o caminho nas outras
distâncias. Mas nós fomos bem preparados nesse aspecto também, utilizando GPX e
acompanhando constantemente a navegação. Nos 160 quilômetros a marcação estava
boa e conseguimos seguir sem problemas.
.jpeg) |
| Missão Cumprida |
E assim fomos avançando quilômetro após quilômetro,
administrando o desgaste, o calor e a longa jornada até completar mais uma
ultramaratona de 100 milhas.
No final, ficou aquela sensação boa de missão cumprida. Mais
uma prova difícil concluída. Mais uma experiência vivida. Mais uma história
para guardar na memória.
As ultramaratonas continuam me ensinando muito sobre
resistência, estratégia, paciência e respeito pelos limites do corpo.
E seguimos em frente.
Sempre realizado. Sempre aprendendo. E sempre aguardando os
próximos desafios.